sábado, 30 de abril de 2011

Friedrich Nietzsche

"Entre as coisas que podem levar um pensador ao desespero está o conhecimento de que o ilógico é necessário para o homem e de que do ilógico nasce muito de bom. Ele está tão firmemente implantado nas paixões, na linguagem, na religião e em geral em tudo aquilo que empresta valor à vida, que não se pode extraí-lo sem com isso danificar irremediavelmente essas belas coisas. São somente os homens demasiado ingênuos que podem acreditar que a natureza do homem possa ser transformada em uma natureza puramente lógica; mas se houver graus de aproximação desse alvo, o que não haveria de se perder no caminho! Mesmo o homem mais racional precisa outra vez, de tempo em tempo, da natureza, isto é, de sua postura fundamental ilógica diante de todas as coisas."

Friedrich Nietzsche - Humano, demasiado humano




domingo, 24 de abril de 2011

CANNABIS SATIVA - Cultura e História



Cannabis spirituality by Alex Grey (http://www.alexgrey.com/)


A mais antiga prova da associação do Homo sapiens sapiens com a Cannabis sativa que se tem notícia são as fezes fossilizadas de um membro de nossa espécie que contêm claramente vestígios do pólen de Cannabis. Este cropólito foi achado às margens do lago Baiakal, na Ásia Central datado em 10 mil anos. É provável que a Cannabis tenha sido uma das primeiras plantas a serem domesticadas pelo homem há 20 mil anos - vários e fortes indícios levam a esta conclusão. Há 15 mil anos, acredita-se, a planta já era usada para a confecção de tecidos, cordas, fios, etc.. no entanto não se sabe se era já inalada ou ingerida deliberadamente com a intenção de alterar a consciência. Em todo caso há provas definitivas do uso cultural da Cannabis há 6.500 anos naquela que é considerada a mais antiga cultura neolítica da China chamada Yang Chao. Nessa cultura, as fibras da planta eram usadas na confecção de roupas, redes de pesca e caça, cordas, etc., sendo que as sementes eram usadas na alimentação na forma de farinha, bolos, pudins e outras preparações.
O livro de medicina mais antigo que se conhece, o Pên-Ts'ao Ching, remonta há 4 mil anos e fala do uso mágico das inflorescências femininas da planta: "Se tomada em excesso produzirá a visão de demônios. Se tomada durante muito tempo ilumina seu corpo e faz ver espíritos." Há 3.500 anos, o Atharva Veda, livro sagrado dos hindus, também se referia a Cannabis na forma de Bhang, preparação esta que incluía a resina da planta misturada com manteiga e açúcar. O Bhang era usado para "libertar da aflição" e para "alívio da ansiedade". Ainda hoje o Bhang é consumido livremente em algumas partes da Índia pelos recém-casados na noite de sua lua-de-mel, como afrodisíaco. A religião hinduísta acredita que a Cannabis é um presente dos Deuses. De fato, diz-se que a planta teve origem quando Shiva (uma das personalidades de Deus na tríade dessa religião), chegando a um banquete preparado por sua esposa Parvati, começa a salivar ao ver tantas delícias e das gotas de sua saliva que caem ao chão surge a planta abençoada.
Os Shivaístas, devotos de Shiva, fumam continuamente a ganja (a planta feminina) com o charas (a resina das flores) para meditarem e se elevarem espiritualmente. Eles consideram que o chillum - o cachimbo onde a planta é fumada - é o corpo de Shiva, o charas é a mente de Shiva, a fumaça resultante da combustão da planta é a divina influência do Deus e o efeito desta, sua misericórdia. Os citas também faziam uso mágico-religioso da cannabis. Esta era privilégio dos nobres que se reuníam para consumi-la em tendas especialmente construídas para este fim. Estas tendas eram montadas sobre as areias do deserto e um grande buraco era aberto onde queimavamtoras de madeiras arométicas. Quando estas estavam em brasa, três ou quatro pés da planta eram jogado inteiros no buraco que era então coberto com uma tampa feita de pele de carneiro, exceto por uma abertura em torno da qual os participantes se reuniam para gozarem dos vapores que se elevavam. Isso há 2.800 anos.
Os Assírios conheciam a planta a qual chamavam Kunubu ou Kunnapu, que veio dar no latin Cannabis. A planta era cultivada pelo rei, que a distribuía diariamente, junto com um litro e meio de cerveja, para todos os cidadãos, num claro exemplo de uso hedonístico, não anônimo. As qualidades medicinais da planta estão descritas em escrita cuneiforme num dos livros mais antigos da humanidade e que fazia parte da Biblioteca de Assurbanipal há 2.700 anos. Este livro pode ser visto hoje no British Museum em Londres.
Entre os Gregos, a Cannabis na forma de haxixe era ingerida junto com o ópio na célebre preparação (descrita por Homero) chamada nepenthes, que aliviava as dores, angústias e preocupações. Dvido a proibição do Corão ao uso do álcool, desde sempre o haxixe e a Cannabis têm sido o embriagante preferido dos povos islâmicos. A célebre seita dos haxixin, liderada pelo afamado Al-Hassan Ibn Sabbah, o Velho da Montanha, fazia uso da planta. Seu líder levava os membros a um recinto onde estes fumavam haxixe em meio a um lauto banquete servido por jovens e belas mulheres que lhes atendiam em todos os seus desejos. Após isto, o Velho da Montanha lhes dizia que assim gozariam do paraíso de Allah caso cometessem assassinatos políticos que favorecessem a seita. A palavra assassino tem origem a partir desse episódio, já que os membos da seita eram chamados haxixin. É certo que os cruzados que os combateram aprenderam destes o uso do haxixe levando-o consigo de volta à Europa.
Com a islamização do norte da África, a planta se espalha rapidamente por este continente e breve não só os povos islamizados dela fazem uso entusiástico como também as tribos animistas do resto da África. Um rei africano apresentado à erva, converte-se a seu culto e a tribo passa a se chamar Bena Riamba - "os irmãos da Cannabis". Todo dia ao pôr-do-sol, os membros desta tribo se reúnem em roda no pátio central da aldeia para fumar a planta. antes de passar o cachimbo, olham-se nos olhos dizendo: "Paz irmão da Cannabis". Representantes desta tribo são até hoje encontrados na costa sul de Moçambique. Assim como os Bena Riambe, muitas outras tribos se convertem ao uso da planta, incorporando-a em destaque no seu panteão. A palavra maconha, nome pelo qual é conhecida entre nós, vem de Ma Konia, mãe divina num dialeto da costa ocidental africana. Apesar de se saber que as caravelas portuguesas tinham seu velame e cordame feitos da fibra do cânhamo (Cannabis sativa), acredita-se que a Cannabis tenha sido introduzida no Brasil pelos negros escravos que pra cá foram trazidos. Os nomes pelos quais a planta é conhecida no Brasil indicam tal fato, já que são todos nomes de origem africana: fumo d'angola, Gongo, Cagonha, Maconha, Marigonga, Maruamba, Dirijo, Diamba, Liamba, Riamba e Pango. Este último vem do sânscrito Bhang, através do árabe Pang, até o africanismo Pango. De toda forma a planta esteve desde o início associada à população de origem africana sendo que a ampliação de seu uso, atingindo também aqueles de origem européia, era considerada por autores como Rodrigues Dória como "uma vingança da raça dominada contra o dominador". Os cultos afro-brasileiros sempre utilizaram a Cannabis. Já no século XVIII, os relatos sobre os calundus - reuniões de negros ao som de tambores - indicavam a presença da planta, que era inalada pelos participantes, deixando-os "absortos e fora de si". Até a década de 30 do século XX, quando são legalizados os Candomblés e Xangôs, a Cannabis era constantemente apreendida nos terreiros junto com os objetos de culto. A cannabis é considerada planta de Exu, sendo consagrada a esta divindade.
Em 1830, a legislação do município do Rio de Janeiro punia o uso do "pito de pango", como era conhecida a Cannabis com pena de multa de 5 mil réis ou dois dias de detenção, esta foi nossa primeira lei a respeito da planta.
Nas décadas de 20 e 30 deste século, são produzidos os primeiros trabalhos científicos brasileiros a cerca do hábito de fumar Cannabis. apesar de seus autores serem em sua quase totalidade médicos preocupados em justificar a proibição da planta, estes tinham um olhar etnográfico sensível, descrevendo com minúcias os rituais do "clube de diambistas", nome dado à associação de indivíduos com o intuito de fumar Diamba. Os diambistas eram, preferencialmente, membros dos estratos mais baixos da população brasileira, em especial pescadores que se reuniam para fumar a erva cantando loas a esta. São dessa época os famosos versos: "Diamba, sarabamba, quando fumo Diamba, fico com as pernas bambas. Fica sinhô? Dizô, dizô". Termos utilizados pelos diambistas, como "fino", "morra" e "marica" entre outros, são até hoje parte da gíria própria dos usuários de Cannabis.
A distribuição geográfica do consumo de Cannabis na época incuía Alagoas, Sergipe, Pernambuco, Maranhão e Bahia. Daí, pouco a pouco o hábito se espalha e, a partir da década de 60, com a contra-cultura, passa a atingir outros estratos sociais. Atualmente seu uso é amplamente disseminado entre as camadas médias urbanas. Também os povos do novo mundo não ficaram imunes à Cannabis. Hoje em dia no Brasil, os Mura, os Sateré-Mawé e os Guajajaras fazem uso tradicional da erva. Os Guajajaras tem a planta em alta estima e sua presença na mitologia do grupo atesta a antiguidade de seu uso, que remontaria à segunda metade do século XVII. A planta é consumida no contexto xamânico, junto com o tabaco para proporcionar o transporte místico do Pajé e na sua divinação. No contexto profano, a erva é inalada em grupo antes de trabalhos pesados nos mutirões para dar disposição, indicando que a chamada "síndrome amotivacional" - associada a Cannabis - possa ser um fenômeno antes cultural que uma decorrência dos seus princípios ativos, Os dados jamaicanos parecem confirmar essa tese, uma vez que nesse país a Cannabis é amplamente fumada por trabalhadores rurais como estimulante antes de trabalhos pesados e extenuantes.
Outros nativos da América também usam a Cannabis, entre os quais estão os índios Cuna do Panamá, que já possuíam escrita antes da chegada dos europeus, os índios Cora do México, e outros. Hoje em dia existem religiões organizadas onde observa-se o uso da Cannabis. Para os Rastafari da Jamaica, a planta é Kaya, energia feminina de Deus. Seu uso diário naquilo que é chamado "Irie meditation", a meditação na energia positiva, é justificado pelas seguintes passagens da Bíblia no Gênesis: "Eu sou Jeová teu Deus, eis que te dou toda planta que há sobre a terra, e que da semente nela mesma, para que fazeis bom uso dela" e no livro das revelações, o Apocalipse, quando descreve o paraíso: "Vi também a árvore da vida, cujas folhas são a cura das nações"
Para a doutrina do Santo Daime, a planta é sagrada e identificada com Santa Maria, a mãe de Jesus. Para consagrá-la, é nescessário aderir a um uso diferenciado, sendo a planta consumida exclusivamente durante os rittuais, em silêncio, com o pito, a designação nativa para baseado, passando sempre no sentido anti-horário, isto é, da direita para a esquerda. Devida à longa história de associação entre nossa espécie e a Cannabis, esta apresenta um grande polimorfismo decorrente das inúmeras hibridizações levadas a cabo com a intenção de desenvolver plantas com qualidades desejadas. Sendo uma planta dióica, ou seja, possuindo os sexos separados em duas plantas: uma macho e outra fêmea, o gênero Cannabis compreende três espécies distintas: sativa, indica e ruderalis.

retirado de:
http://www.makonheiro.hpg.ig.com.br/historia.htm

domingo, 17 de abril de 2011


As Pedras-Cogumelos



No Sul do México, entre os descendentes dos Astecas e dos Mayas é um cogumelo, o teonanacatl, ou "carne de Deus", que constitui o alimento divino próprio a ajudar o homem a subir o rio de suas metamorfoses até sua primeira origem. Com os psilocibes, consumidos ritualmente, os índios mazatecas e zapotecas - entre outros - empreendem ainda hoje a viajem contra a corrente que, além dos espaço e do tempo, os leva - pelo menos é o que afirmam - da periferia do mundo onde reinam a miséria e o sofrimento até o Jardim primitivo, entre os deuses de seus ancestrais.

Essa volta ao estado primordial, atribuida ao cogumelo divino, é evocada num afresco descoberto em Tépantitla, e que representa uma alma visitando o Tlalocan, ou Paraíso de Tlaloc, o deus da chuva e dos teyuinti, em outras palavras os cogumelos alucinógenos. Um rio atravessa o país, um fio de água dele se destaca e une a alma ao rio, como que para testemunhar sua união essencial. Um pouco mais longe, o gênio dos cogumelos, sob a aparência de um hombrecito, está acocorado sob a árvore paradisíaca. Sobre esta última uma serpente aérea desdobra suas espirais, como que para lembrar-nos que a árvore da Vida está sempre guardada por um monstro.

Concepções análogas inspiraram os escultores das pedras cogumelos descobertas no Máxico e na Guatemala.

Entres estas pedras esculpidas, as mais comuns representam um agárico cujo chapéu circular cobre um pé cilíndrico pousado sobre um soco de base quadrada ou retangular. Outros pelo contrário, trabalhados sabiamente, associam ao criptograma uma personagem ou um animal. As maiores atingem 30 ou 35 centímetros. A maioria destas esculturas são de origem Maya. As mais antigas parecem remontar ao século X, se não ao XII antes de Cristo; as mais recentes datam do século VIII ou do IX depois de Cristo.

Com seu tipo vertical e seu chapéu sensivelmente hemisférico, o agárico lembra um pequeno guarda-chuva. Esta comparação requer algumas explicações.

É por isso que, entre os hindus, o "guarda-chuva" é o emblema do Chacravarti ou Monarca Universal. Assim como o trono é uma insígnea da realeza; mas, ao passo que o segundo se refere ao poder temporal do soberano, o primeiro diz respeito à sua força espiritual. Sentado sob o guarda-chuva sagrado, o Chefe situa-se ritual e simbólicamente sobre o eixo que liga o Céu e a Terra: ele é, aos olhos de todos, o "mediador" entre os homens e os Deuses. Essas correspondências têm suas origens no simbolismo próprio à forma menos específica, mas a mais dinâmica de todas, que é a esfera, de um lado, e de outro a que pode ser considerada como a forma mais extática, isto é, o cubo. É por isso que, em todas as épocas, o pólo essencial da Manifestação tem sido representado por um barrete esférico - abóboda ou cúpula - ao passo que seu pólo substancial estava associado à formas cúbicas mais ou menos alongadas ou achatadas.

No espírito dos povos depositários de uma tradição, a Manifestação inteira e o homem em particular estavam contidos entre a forma esférica original do Ovo do Mundo e a forma cúbica de sua solidificação progressiva e sua cristalização final.

Os templos de base quadrada e teto circular, refletiam este simbolismo cósmico; o grande sacerdote ocupando a parte central do edifício sagrado reintegrava, de certo modo publicamente, o Centro primordial e identificava-se com o Eixo do Mundo. O povo todo podia, então, saudar em sua pessoa a última encarnação do Deus Sol, e inclinar-se diante daquele que aparecia como o regulador da ordem cósmica tanto quanto da ordem social.

Em Mitla, visitamos um templo, verdadeiro prodígio da arquitetura Tolteca, e descemos à uma cripta em forma de cruz. Na intersecção das galerias que formam esta última existe uma coluna truncada que materializa o eixo do edifício e, portanto, o Eixo do Mundo.

Entre as pedras-cogumelos conhecidas, há duas que estão certamente entre as mais significativas. A mais antiga, que representa um agárico fixado no dorso de um jaguar, foi descoberta na Guatemala e remonta ao século X a.C.; a mais recente, que se acha atualmente no Museu Rietberg, em Zurique, reúne um criptograma e uma figura humana e data do começo do período clássico da civilização zoomórfica (300 a 600 anos d.C.).

A escultura zoomórfica resulta da combinação de dois símbolos tradicionalmente inseparáveis: a Árvore da Vida, de um lado, e o monstro que lhe defende o acesso do outro. A exemplo do guarda-chuva dos orientais, o agárico idealizado nas pedras-cogumelos simboliza plenamente essa parte do Eixo do Mundo que liga diretamente o paraíso terrestre aos degraus da existência universal, que são os Céus. Observemos o quadriculado gravado sobre a estipe. A impressão que se tem é a de uma teia de malhas largas que cobririam o eixo de toda a sua altura, como que para sugerir, além da opacidade da pedra, um vazio essencial, dando ao mesmo tempo a idéia da realidade metafísica oculta sob o símbolo.

Quanto ao Jaguar que, com as garras de fora constitui o soco sobre o qual repousa o cogumelo, ele é - como também a serpente e o dragão - o "Guardião do Umbral" com o qual se devem medir os candidatos à Iniciação.

Colocado entre a esfera e o cubo o jaguar situa-se simbolicamente entre o pólo celestial e o pólo terrestre. Estamos certamente diante de uma representação do "Filho do Céu e da Terra", do mediador por exelência que, na época das antigas civilizações solares, exercia a dupla função de Pontífice e Soberano.

A base desta escultura, como trono de pirâmide, lembra as pirâmides do México e de outras partes cujo simbolismo se assemelha estreitamente ao do cubo. Na realidade enquanto a arquiteutra cúbica corresponde a uma visão estática do pólo substancial, a estrutura piramidal refere-se ao processo involutivo da Manifestação, cujo distanciamento progressivo se efetua no sentido de uma quadratura crescente.

O culto do teonanacatl é certamente muito antigo. Atualmente os psilocybesalucinógenos são consumidos frescos e inteiros, mas tudo leva a crer que no princípio eram esmagados a fim de extrair-se uma "beberagem da imortalidade", análogas aquelas que são tiradas da polpa do peyote, dos grãos de ololiuhqui - cujo princípio ativo é semelhante ao LSD 25 - e das folhas de "pastora".

Possuimos, realmente uma grande pedra cogumelo antropomórfica muito característica nesse sentido. A silhueta que suporta a estipe do agárico é a de uma mulher de joelhos, inclinada sobre uma espécie de mó chata e retangular, o metate do qual os índios desta região se servam ainda hoje para esmagar todas as espécies de grãos. Na província de Oaxaca, as curandeiras operam deste modo com os grãos da ipomea violacea.

Os alimentos sagrados dos índios do México podem ser comparados às beberagens de imortalidade da Índia e da Pérsia. "Bebemos o Soma, tornando-nos imortais, chegamos à Luz, atingimos os Céus..." proclamam os hindus no templo dos Vedas. "O primeiro dom que imploro de ti" escrevia Zaratustra "o Haoma que afasta a morte, é o paraíso dos justos resplendentes e bem aventurados".

Assim como o Soma e o Haoma, o teonanacatl dos Astecas e dos Mayas era principalmente - na origem - um instrumento de reintegração ao estado primordial, um meio ritual de reencontrar a condição dos espíritos e o caminho do Paraíso perdido. Se nos faltam textos escritos, os afrescos e as pedras-cogumelos demonstraram, na linguagem universal dos símbolos, uma Ciência esquecida, e seu testemunho concorda com os do Rig-Veda e do Avesta.

Se o culto dos cogumelos sagrados se degradou no curso dos séculos, ainda sobrevive no Sul do México. Os relatos sobre a experiência com Psilocybes nos falam sobre a subida extática através dos Céus, do encontro e do diálogo do sujeito com os Deuses e seus ancestrais, assim como da maravilhos certeza - alcançada no ponto culminante da experiência - de ter recobrado o "senso da eternidade".

Durante os ágapes fungosos, limpam-se os psilocybes, tirando-les a terra, e eles são enfileirados dois a dois e contados aos pares. O número de pares depende da constituição do sujeito. cada par se compõe de um cogumelo macho e um cogumelo fêmea. A curandeira que formou os pares apresenta-os a pessoa. Os cogumelos são, portanto "casados" quando levados à boca, como se, pelo sacrifício destes singulares cônjugues, todas as dualidades, todos os contrários devessem reconciliar-se no coração do paciente e fundir-se na unidade reencontrada.


Fonte:

Mandala. A experiência alucinógena. Ed. Civilização Brasileira. 1972


sábado, 2 de abril de 2011

Xochipilli

Antiga estátua do século XVI representando o deus asteca Xochipilli, no qual estão gravadas diversas representações de plantas e fungos psicoativos. Segundo a enciclopédia livre Wikipédia era o deus do amor, dos jogos, da beleza, das danças e da juventude. Era um deus que fazia nascer as flores, seu nome significa literalmente Príncipe das flores (Xochi = flores Pilli = príncipe). fontes: Wikipédia Peter E. Furst. Cogumelos Psicodélicos. Ed. Nova cultural.1989

domingo, 20 de março de 2011

O Instinto de Alterar a Consciência!

Andrew Weil em seu livro Drogas e Estados Superiores da Consciência (um livro revolucionário a meu ver) sugere que o desejo de alterar a consciência periodicamente - seja por meio de substâncias psicotrópicas, pela meditação, danças, jejum ou qualquer outro meio - constitui um impulso inato e normal tão intrínseco quanto o impulso sexual e a fome.

A necessidade de períodos de consciência não-ordinária começa a ser expressa em idades demasiado jovens, reduzindo muito as chances de estarmos lidando com um fenômeno resultante da influência condicionadora do meio: Crianças de três a quatro anos engajam-se extensamente em experiências com estados mentais usualmente no sentido de perder a consciência de vigilia, quem quer que observe crianças pequenas sem ser visto as verá rodopiando sob o mesmo eixo até caírem em estupor (quem não girava ao redor de sí mesmo quando criança atire a primeira pedra!), elas também hiperventilam-se, pressionam o tórax umas das outras e estrangulam-se para produzir inconsciência; muitas ainda decobrem que a zona de transição entre a vigília e o sono oferece muitas oportunidades para sensações inusitadas; as crianças engajam-se nestas experiências longe dos adultos, sempre prontos a reprimi-las e culpá-las.

Tais brincadeiras são observadas nas crianças de todas as culturas ao redor do globo, os psicólogos pouco atenção deram a estas atividades rotulando-as de "equivalentes sexuais" sugerindo que tivessem alguma relação com o orgasmo, uma interpretação reducionista do fenômeno que não amplia nossa capacidade de descrevê-lo, predizê-lo ou influenciá-lo, além do que - diz Weil - "nossa compreensão da experiência sexual é demasiado primitiva para nos ajudar muito".

Além disso a prática de induzir alterações na consciência esteve presente em todas as culturas ao longo da história. Civilizações em diferentes épocas e lugares sempre praticaram algum tipo de estado alterado envolvendo ou não o uso de substancias psicoativas. Todas as civilizações (com excessão dos esquimós) também possuíam seu intoxicante tradicional que era parte de sua cultura, seus ritos e/ou sua espiritualidade. Esta onipresença do fenômeno serve como argumento relativo à estarmos tratando de uma característica biológica da espécie.

A maioria das grandes religiões e pensamentos filosóficos do mundo surgiram em decorrência de estados alterados de consciência por parte de seus fundadores (Gautama, Maomé, São Paulo, Joana D'ark, etc.), também é de se notar que o gênio criativo há muito foi associado à psicose e o gênio intuitivo com o sonhar acordado, a meditação, os sonhos e outros métodos não ordinários de consciência. No Xamanismo as plantas de poder e os estados alterados são elementos essenciais de seu sistema espiritual. É ainda muito provável que as primeiras manifestações de espiritualidade pelo homem tenham tido sua origem nos estados alterados provocado pelo cogumelo Stropharia cubensis, o conhecido "cogumelo mágico"; esta tese foi abordada por autores como Robert Graves, Gordon Wasson, Terence McKenna e Timoth Leary.

Há muita lógica em nascermos com um impulso para experimentarmos outras maneiras de sentir nossas percepções: os estados alterados têm um grande potencial para um desenvolvimento psíquico extremamente positivo: parecem caminhos para um uso mais eficiente de sistema nervoso, para desenvolver faculdades criativas e intelectuais e para atingir certos tipos de pensamento que foram tidos por exaltados por todos os que os experimentaram. Os estados alterados devem ter influenciado profundamente a seleção natural da espécie humana: As faculdades criativas e intelectuais adquiridas atravéz dos estados alterados quando aplicadas ao dia-a-dia aumentariam as chances de sobrevivência, humanos mais criativos e reflexivos teriam muito mais facilidade em se adaptar a seu meio. Assim sendo o cérebro humano em sua atual fisionomia e fisiologiae resulta em parte dos estados alterados atingidos por nossos ancestrais que lhes permitiram sobreviver às turbulências do meio e passar seus genes adiante.

Fontes:
Drogas e Estados Superiores da Consciência. Andrew Weil. Ed. Ground. 1990
História das Ervas Mágicas e Medicinais. Mar Rey Bueno. Madras editora. 2009
O Alimento dos Deuses. Terence McKenna. Ed. Nova Era

terça-feira, 8 de março de 2011

Neste vídeo imperdível Terence McKenna defende a teoria que os cogumelos alucinógenos contendo psilocibina foram os responsáveis pelo surgimento do neocortex humano e da linguagem!

Profeta do Psicodélico

Stanislav Grof foi um dos primeiros a conhecer o LSD e agora é o maior guru da psicologia transpessoal

Com Timoth Leary, recentemente falecido, e Ralph Metzner, da Universidade de Harvard, o psiquiatra húngaro, hoje radicado nos EUA, Stanislav Grof compõe o triângulo principal da chamada cultura psicodélica dos anos 60 e 70. Fascinado pelos estados de alteração de consciência, ele criou as bases do que se convencionou chamar de psicologia transpessoal. Uma ciência baseada em paradigmas científicos que reconhecem a alma e a relação entre consciência e matéria. Grof acredita que não se pode mais tratar as pessoas como corpos ou mentes. No final de maio, ele esteve em Manaus onde presidiu a 15ª Conferência Internacional de Psicologia Transpessoal e se confessou entusiasmado com o panreliogiosismo, a pajelança e os rituais indígenas brasileiros. Nesta entrevista para ISTOÉ conta um pouco de sua história e lembra o primeiro contato com LSD, então uma droga que se imaginava capaz de provar que a psicose e a esquizofrenia não eram doenças mentais, mas apenas o resultado de alterações químicas.

ISTOÉ - Quais as diferenças entre a psiquiatria convencional e a transpessoal?

Grof - Pessoas que têm um contato direto com a espiritualidade recebem diagnósticos de esquizofrênicos ou psicóticos. A psiquiatri transformou a espiritualidade em algo psicopatológico. Eu não conheço nenhuma religião que não tenha começado com uma experiência visionária dos fundadores, algo que chamaríamos hoje de uma experiência transpessoal. Segundo a psiquiatria, Santa Tereza foi uma histérica, São João da Cruz um esquizofrênico, Maomé um epilético. Eu não estou dizendo que não existem doentes com modificações de consciência que advém de problemas orgânicos. Estou sim falando de experiências onde uma visão de mundo mais ampla chega à consciência. Não como uma distorção de mundo, mas como uma oportunidade de compreender mais sobre o universo e complementar nossa visão.

ISTOÉ - Por que decidiu se dedicar a este ramo da psicologia?

Grof - Quando eu era criança, em Budapeste, Walt Disney era meu herói, e queria trabalhar com histórias em quadrinhos para o cinema. Mas fiquei tão excitado com as leituras sobre psicanálise que decidi estudar medicina. À medida que fui me aprofundando, me interessei pela análise de sonhos, sintomas neuróticos, lapsos de memória e psicoses. Quando percebi que se pode fazer muito pouco de prático com a psicanálise tradicional fiquei desapontado. É muito tempo, dinheiro e energia, e os resultados não são convenientes. Cheguei a me arrepender de não ter seguido a carreira cinematográfica.

ISTOÉ - E quando se iniciou com drogas psicodélicas?

Grof - Estava trabalhando com os primeiros tipos de tranquilizantes, como o melaril, desenvolvido pela Sandoz, quando eles nos mandaram uma caixa cheia de LSD, para ver se havia alguma utilidade na área psiquiátrica. A idéia principal era provar que a psicose e a esquizofrenia não eram doenças mentais, mas uma alteração química. Outra idéia era utilizar o LSD como treinamento não-convencional para psiquiatras, estudantes e enfermeiras para entenderem melhor os pacientes que tratavam. Era 1955, e eu me ofereci para a experiência. Foi uma transformação formidável para mim. Comecei a trabalhar sistematicamente na área de psicodélicos, e tive uma experiência mística poderosa, que me abriu espiritualmente.

ISTOÉ - Que experiência foi essa?

Grof - Eu tinha curiosidade de ver o que acontecia sob efeito do LSD. Quando fui exposto a uma luz estroboscópica saí do corpo, do laboratório, do país, do planeta, e minha consciência se tornou o universo. Uma experiência inesquecível. Passei 20 anos pesquisando essa área. Depois mais 20 anos estudando a respiração holotrópica, onde se conseguem os mesmos efeitos somente com a respiração, sem o uso de drogas.

ISTOÉ - Além do LSD e da respiração holotrópica existem alguns métodos seguros para se alterar a consciência?

Grof - O trabalho ritual com dança e canto, ou usando tambores. Métodos bastante extremos, como o jejum, não dormir, retirar-se para um deserto, uma caverna ou uma montanha. Em muitas culturas há o uso de plantas psicodélicas: a maconha usada pelos sufis, por algumas tribos africanas e pelos rastafarianos; na América central o peyote, os cogumelos sagrados do México, a ayahuasca e a datura. Há também variadas técnicas de meditação, de dança, ioga, budismo, do sufismo, da cabala e o misticismo cristão. Tudo isso leva ao contato com a espiritualidade, o que Jung chamaria de arquétipos do inconsciente coletivo. Outra dimensão importante dos estados alterados é provocar a cura de pacientes através desses estados, desenvolver a intuição, a inspiração artística e criativa.

ISTOÉ, Junho de 2003

a psicose transcendente

O surto psicótico é um estado potencialmente transcendente como demonstrado pela visão do fenômeno pela anti-psiquiatria e pela sabedoria das culturas Xamãnicas.
Psicose é um termo genérico que abrange perturbações psíquicas como alucinações, mania de perseguição e perda de contato com a "realidade". Para a psiquiatria tradicional trata-se de uma doença de causas desconhecidas; o tratamento requer medicação e em alguns casos internações sendo as chances de recuperação promovidas por estes meios bastante limitadas. Ao longo da história foram feitas tentativas agressivas para "curar" a psicose como a lobotomia (divisão do tecido cerebral em dois ou mais pedaços), ingestão de substâncias eméticas (que provocam vômito), sangria, eletroconvulsão, doses elevadas de sedativos, etc. Atualmente os psicofármacos constituem a principal forma de tratamento, segundo o neurocirurgião Frank Vertosick as drogas psicotrópicas não promovem nenhuma melhora substancial, apenas impedem os pacientes de "nos incomodarem".
A visão da loucura enquanto uma doença é relativamente nova na história, o termo "esquizofrenia" apenas serviria para rotular os desviantes que não inerpretam os papéis definidos como "normais" em sua vida diária. Segundo David Cooper, um dos precursores da anti-psiquiatria:

"A experiencia psicótica, contando com a orientação correta, é capaz de conduzir a um estado humano mais avançado, porém, muito frequentemente, é convertida pela interferência psiquiátrica em um estado de paralisia e estultificação da pessoa"

Para a anti-psiquiatria a normalidade também é uma forma alienada de existência. É considerado normal aquilo que a maioria das pessoas fazem em um determinado contexto, o indivíduo normal apenas se adapta as coisas como são vivendo no alienado jogo de papéis imposto pela sociedade. "Não fosse pelas atitudes de rebeldia de todos aqueles que não aceitaram o que era dado, criando o que ainda não havia, estaríamos todos nas cavernas". A anti-psiquiatria não descarta a existência de debilidades psíquicas realmente patológicas oriundas de problemas orgânicos, mas se opõe categoricamente à visão tradicional da loucura pela medicina.
No episódio psicótico ocorre uma desestruturação do "eu" (ou dos "eus") do indivíduo. Ele deixa de saber quem ou o que ele é mergulhando em uma fantasmagórica região interior. Tal mergulho é, de maneira ambígua e dialética, uma forma de libertação: libertação das estruturas alienadas da "normalidade" que eram impostas ao indivíduo.
Esta imersão em níveis mais profundos da mente, que existe como uma possibilidade latente em cada um de nós, assemelha-se à uma viajem na qual o indivíduo embarca, podendo retornar dela reorganizado e reestruturado desde que o processo não sofra interferências desastrosas. A psicose, segundo os precursores da anti-psiquiatria pode ser considerada um processo natural de cura onde o indivíduo busca desesperadamente a sí mesmo abandonando os modos impostos pelo meio e penetrando em um universo interior exclusivo dele.

"Esta viajem é sentida como uma penetração interior mais profunda, como um regresso atravéz da vida pessoal, para dentro, de volta, atravéz e para além da experiência de toda a humanidade, mergulhando no homem primitivo, em adão, e talvez mais longe ainda, no ser dos animais, vejetais e minerais"

Existem pessoas acometidas por alucinações que sentem-se confortáveis em sua condição. Este estado foi denominado pelo médico, biólogo e estudioso da mente Andrew Weil como "psicose positiva". Ele também cita casos de "paranóia positiva" e "neurose positiva". Ainda segundo Weil "todo psicótico é um sábio em potencial e na extensão em que os psicóticos negativos são pesos para a sociedade, nesta mesma extensão os psicóticos positivos podem ser trunfos".
O potencial transcendente da experiência psicótica torna-se ainda mais evidente quando analizamos o mesmo fenômeno do ponto de vista de outras culturas:
As sociedades indígenas demonstram uma extraordinária concepção do surto psicótico: quando ele se manifesta em algum indivíduo (o que geralmente ocorre na adolescência) tal fenômeno - longe de ser considerado doentio - constitui uma escolha dos deuses, aquele que manifesta o surto psicótico é escolhido e treinado para ser o futuro Xamã ou curandeiro da tribo.
O jovem Xamã em formação sofre perturbações psicóticas ou epiléticas, torna-se ausente, procura a solidão além de apresentar enfermidades físicas. Este estado somente se abranda quando o indivíduo aceita tornar-se Xamã, caso contrário sua condição o leva a morte. Acatando sua vocação o iniciante começa a ser treinado pelos Xamãs mais velhos e experientes da tribo.
O tratamento da psicose proposto pela anti-psiquiatria é semelhante ao dos índios: o paciente psicótico é acompanhado durante a experiência do surto por um terapeuta no qual ele confie e que possa direcionar o processo quando preciso. Os índios também o fazem, porém o acompanhamento se dá em um contexto espiritual envolvendo as tradições, os mitos e as práticas espirituais da tribo. Tal contexto é útil para a interpretação do futuro Xamã de suas visões que passam então a fazer maior sentido e permitem a ele certa "manutenção" de suas experiências e capacidades. Assim o processo de tornar-se Xamã pode ser considerado um processo de cura àqueles cujas experiências psicóticas são desagradáveis e debilitantes, ao menos dentro do contexto em que é executado.
O uso de compostos alucinógenos também faz parte do treinamento e das práticas espirituais regulares do Xamã como o vôo extático, o diagnóstico de doenças e na cura de enfermidades físicas e psíquicas. Não se trata de um consumo irresponsável e desmedido e sim, de um uso totalmente ritualizado incapaz de provocar os problemas associados a drogas presentes em nossa decadente sociedade. A substância, juntamente com cantos, invocações, danças e adereços sugestivos proporcionam experiências extra-corpóreas onde o Xamã visita inúmeros mundos ou dimensões, negocia com os deuses, recebe fórmulas medicinais, resgata almas perdidas de pessoas enfermas, diagnostica doenças, dentre outros.
É no mínimo curioso que estas substâncias são descritas como capazes de provocar verdadeiras psicoses, mas também são usadas no processo de ascenção do Xamã bem como na própria psicoterapia.
Até quando a medicina tradicional vai continuar com sua cômoda e limitada visão do surto psicótico como uma condição patológica? à quantos processos agressivos os psicóticos ainda terão de ser submetidos para que os médicos se toquem de sua própria insanidade??

Fontes:
A política da loucura. João F. Duarte Júnior. Ed. Papirus. 1986
Drogas e estados superiores da consciência. Andrew Weil. Ed. Ground. 1990
O Xamanismo e as técnicas arcaicas do Êxtase. Mircea Eliade. Ed. Martins Fontes. 2002

domingo, 6 de março de 2011

Cogumelos Magicos na Globo! (sim, é exatamente o que vc acabou d ler!)



eu recomendo também este documentário da National Geographic sobre o uso terapêutico do LSD e outros alucinógenos:
http://www.youtube.com/watch?v=LR4F3mvFIg0&playnext=1&list=PLB9F1C5AA2F327F78

Os homens, o Gado, os Cogumelos...

Quando nossos ancestrais remotos afastaram-se das árvores e passaram a ocupar as pradarias, cada vez mais encontraram gado selvagem que comia vegetação. Esses animais tornaram-se uma grande fonte de sustento potencial. Nossos ancestrais também encontram o esterco desse gado selvagem e os cogumelos que cresciam sobre ele.
Vários desses cogumelos das pradarias contém psilocibina: os da espécie Panaeolus e o Stropharia cubensis, também chamado de Psilocybe cubensis. Este último é o conhecido "cogumelo mágico" atualmente cultivado por entusiastas em todo o mundo.
Amplas evidências apóiam a noção de que o Stropharia cubensis é a superplanta ou o umbigo da mente feminina no planeta, que, quando seu culto estava intacto - o culto paleolítico da Grande Deusa de Chifres -, transmitia o conhecimento de que somos capazes de viver num equilíbrio dinâmico com a natureza, com os outros e com nós mesmos.
O arquétipo da Deusa Mãe de Chifres está presente em inúmeras culturas ao redor do globo, a vaca é um símbolo de maternidade e da terra nutriz desempenhando um papel cósmico e divino. No antigo Egito a vaca Ahet é a origem da manifestação, a mãe do Sol. Aparentemente, a Grande Mãe, ou Grande Vaca dos mesopotâmeos era também uma deusa da fecundidade. Entre os germanos a vaca Audumla é uma das primeiras manifestações de vida de sua cosmogonia juntamente com o gigante Ymir dos quais descendem a geração de deuses e a humanidade. Esse mesmo simbolismo estende-se à totalidade dos povos indo-europeus e permaneceu extremamente forte na índia onde a vaca é um animal sagrado venerada com muita eloquência nos vedas.

A vaca é o céu, a vaca é a terra;
A vaca é Vishnu e Prajapati;
O leite ordenhado na vaca saciou
Os Sadhya e os vasni

Segundo Terence McKenna autor do livro "O Alimento dos Deuses" o relacionamento entre seres humanos e cogumelos teria de incluir também o gado, os criadores da única fonte dos cogumelos. Esse relacionamento tem aproximadamente um milhão de anos, já que data dessa época a era dos caçadores nômades. Os últimos cem mil anos são provavelmente uma quantidade de tempo mais do que generosa para permitir a evolução do pastoralismo a partir de seus primeiros vislumbres. Assim estamos falando de um costume profundamente arraigado, um hábito cultural extremamente poderoso.
A interação dos homens com os cogumelos não foi um relacionamento estático, e sim dinâmico, através do qual fomos levados, por méritos próprios, à níveis culturais cada vez mais altos e a níveis de autoconsciência individual. "Acredito que o uso dos cogumelos alucinógenos nas pradarias da África nos deu o modelo para o surgimento de todas as religiões. E quando, após longos séculos de lento esquecimento, de migrações e mudanças climáticas, o conhecimento do mistério se perdeu, em nossa angústia trocamos a parceria pelo domínio, a harmonia com a natureza pelo estupro da natureza, a poesia pelo sofisma da ciência. Resumindo, trocamos nosso direito inato de parceiros no drama da mente viva do planeta pelos cacos da história, pela guerra, pela neurose e - se não acordarmos rapidamente para a nossa situação difícil - pela catástrofe planetária".

Fontes:
O Alimento dos Deuses. Terence MacKenna. Ed. Nova Era.
Dicionário de Símbolos. Jean Chevalier e Alain Gheerbrant. 24ª Ed. José Olympio ed.



Partida para o Sabbath

Este desenho foi baseado em uma xilogravura do século XVII representando um ritual da idade média no qual as Bruxas (ou não) esfregavam em seu corpo um unguento composto de inúmeras plantas psicoativas como a beladona, o meimendro-negro, a mandrágora, o acônito e o estramônio. Cada uma destas plantas contém quantidades variadas de atropina e de outros alcalóides estreitamente relacionados com ela: a hioscina e a escopolamina. Destaca-se a capacidade destas substâncias de submergir o usuário em um profundo estado de transe, de anular sua memória e de provocar visões ou, melhor dizendo, autênticas alucinações que, ao acordar reconhecerá como reais.
Estas plantas são altamente tóxicas e a quantidade de toxina que causa a embriaguêz é muito próxima da quantidade capaz de provocar a morte por intoxicação. As bruxas e feiticeiras da idade média eram verdadeiras especialistas nestas plantas, sua colheita era feita ao entardecer, com as últimas luzes do dia. Eram vários os motivos que levavam estas sábias mulheres a se esconder no luso-fusco das florestas para evitar serem vistas pelos seus vizinhos, sempre dispostos a acusá-las de pactos satânicos. Mas o principal motivo para colher suas ervas ao anoitecer era porque sabiam que nesse exato momento as plantas escolhidas tinham a maior quantidade de princípios ativos: o acúmulo de alcalóides ao longo do dia, graças à ação prolongada da luz solar, era máximo com o cair da tarde, momento ideal para colhê-las. Em várias ocasiões, era recomendado às bruxas que colhessem as plantas em cemitérios, lugares ricos em matéria orgânica e com solos carregados de compostos nitrogenados, o que dobrava a quantidade de alcolóides do vejetal.
Os efeitos causados por estes unguentos foram relatados no final do século XIX por Karl Kiesewette que fabricou um destes unguentos seguindo as receitas de antigos autores e aplicou-o em si mesmo: "pouco depois [de ter me untado], tive a impressão de estar voando atravéz de um tornado. quando besuntei as axilas, os ombros e as demais partes do corpo, caí em sono profundo e, nas noites seguintes, tive sonhos muito intensos de trens rápidos e paisagens maravilhosas dos trópicos. Várias vezes sonhei que, por causa da distância, as casas abaixo tiveram para mim dimensões minúsculas."
O Unguento causava nas bruxas a sensação de voar, esta é a origem da lenda de que as bruxas voavam em vassouras, não se trata de um vôo físico, mas de uma experiência psíquica transcendental, de forma que não é a bruxa que vai até o sabbath (conceito oriundo da idade média que designa uma reunião de feiticeiras em um espaço noturno) mas sim, o sabbath que vem até ela!

fonte:
História das Ervas Mágicas e Medicinais. Mar Rey Bueno. Madras editora, 2009.

Pink Floyd e a psicodelia


A banda norte americana Pink Floyd surgida ao fim da década de 1960 em meio aos movimentos de contra-cultura é uma grande referência que utilizo em meu trabalho. O primeiro desenho é baseado no clássico filme The Wall de Roger Watters, o segundo foi baseado na capa do album Aton Heart Mother.
As letras das músicas envolvem a alienação em massa, a loucura e as drogas psicodélicas. Segundo o teórico musical e sociólogo Theodor Adorno a música popular apresenta extruturas rítmicas padronizadas que tornam seus acordes substitutos e aparentemente individualistas imperceptíveis. Diferentemente da melhor música clássica européia na qual cada detalhe "praticamente contém o todo e conduz à exposição do todo, enquanto, ao mesmo tempo, é produzido fora do contexto do todo".
As composições do Pink Floyd estariam próximas deste último conceito além de incluírem em suas músicas elementos "não-musicais" como sons de campainhas de relógios, ovos sendo fritos ou latidos de cães. Os arranjos musicais também reproduzem três principais efeitos da experiência com LSD segundo Michael Hicks: A descronização (rompimento das percepções convencionais do tempo) que faz com que as músicas sejam aumentadas e seus ritmos desacelerados com solos longos e não-direcionais; a despersonalização (rompimentos das barreiras comuns do ego e da consciência resultante da unidade indiferenciada) que envolve uma amplificação extremamente alta em shows ao vivo resultando em uma diminuição da consciencia individual, além disso, dentro da banda a distinção entre músicos principais e de acompanhamento não se define; por último temos a dinamização (meio pelo qual as formas físicas extáticas parecem se dissolver em objetos de gordura derretida) expressa por uma série de técnicas especialmente relacionadas ao rock psicodélico como uso de reverberação artificial, progressões de acorde incomuns, unidades de ressonância e sons estéreos para indicar enormes espaços interiores, retorno de som e misturas de elevações de sons para dinamizar e deixar "derreter" timbres que, de outro modo seriam totalmente estáveis.

Fonte: Pink Floyd e a filosofia. Coletânea de George A. Reisch. Madras editora. 2010